2030


23
Apr 16

Como os Carros sem Motorista vão Redesenhar nossas Cidades

Fila de carros (Lexus) autônomos da Google, num evento da Google Computer History Museum, em Mountain View, California. AP Photo/Eric Risberg.

Fila de carros (Lexus) autônomos da Google, num evento da Google Computer History Museum, em Mountain View, California. AP Photo/Eric Risberg.

Este artigo foi publicado em 25 fevereiro de 2016 no site Curbed (www.curbed.com), que trata de tudo sobre casas, design de interior e arquitetura, terrenos, reformas, casas minúsculas, pré-fabricadas e tecnologia para o lar. O texto foi escrito por Patrick Sisson e traduzido por mim, de forma livre.

Em apenas poucos anos, os carros autônomos saíram daquela remota visão futurística para uma quase certeza. Montadoras e empresas de tecnologia estão numa louca corrida para desenvolver carros que possam se auto navegar por nossas ruas e estradas. Google declarou recentemente que sua frota de carros autônomos percorre 4.800.00 quilômetros por dia. Claro que toda essa certeza vem junto com um monumental asterisco: adoção generalizada, barreiras tecnológicas, estruturas legais que precisam ser eliminadas e, claro, ainda não há nenhum carro-robô legalizado para andar nas ruas à venda para o público. Mas os massivos investimentos e o tamanho potencial do mercado (de US$ 42 bilhões, de acordo com o Boston Consulting Group) sinaliza que eles estão chegando, de um jeito ou de outro.

Isso significa absurdas mudanças no nosso deslocamento diário, mas também tem um imenso potencial de remodelar dramaticamente nossas cidades. O tamanho, o alcance e o impacto ambiental dos carros têm sido um enorme fator no planejamento e no desenvolvimento urbano do último século. Um mundo onde carros sem motoristas são predominantes, e veículos com propriedade compartilhada passam a ser a regra, oferece uma chance para repensar e reconsiderar o desenho de nosso ambiente urbano. Curbed entrevistou 5 designers expertos em centros urbanos e pediu a eles que especulassem como esse potencial futuro do transporte, chegando sob sua própria direção, poderia remodelar as cidades em que vivemos.

Um gráfico re-imaginando a rua 19th, em São Francisco: bem menos carros nas ruas devido a eficiência causada pelo uso de carros sem motoristas. Mais espaço para as faixas para bicicletas e áreas verdes. green space. Gerry Tierney, Perkins + Will.

Um gráfico re-imaginando a rua 19th, em São Francisco: bem menos carros nas ruas devido a eficiência causada pelo uso de carros sem motoristas. Mais espaço para as faixas para bicicletas e áreas verdes. green space. Gerry Tierney, Perkins + Will.

Adeus, estacionamentos (e carros estacionados)

Alain Kornhauser, professor na Universidade de Princeton: “O maior impacto será nos estacionamentos. Nós não iremos precisar deles, definitivamente, não nos lugares que eles estão hoje. Estacionamentos perto de onde as pessoas trabalham ou se divertem serão uma coisa do passado. Se eu for a um jogo de futebol, meu carro não precisa ficar comigo. Se eu estiver no escritório, ele não precisa estar ali. O shopping center que conhecemos hoje, com um mar de vagas de estacionamentos, está morto.”

Dr. Kara Kockelman, da Universidade do Texas em Austin: “Tudo vai depender realmente da quantidade de pessoas que vão abrir mão de ter a propriedade de um carro. Eu acho que a gente perderia 50% da demanda para estacionamentos. Se todos aderissem, nós poderíamos nos livrar de 7 em cada 8 carros nas ruas, portanto, precisaríamos de apenas 1/8 das vagas de hoje.”

Carlo Ratti, diretor no MIT Senseable City Laboratory: “Normalmente, nos EUA, um carro fica parado por assombrosos 95% do tempo. O compartilhamento de carros [no Brasil temos o ZAZCAR, Uber] já está reduzindo a necessidade por vagas de estacionamento: há uma estimativa de que cada carro compartilhado remove entre 10 a 30 carros privados das ruas. Os carros autônomos vão reforçar essa tendência e prometem ter um impacto dramático na vida urbana, porque irão diluir as diferenças entre os modos privados e públicos de transportes. ‘Seu’ carro poderia te dar uma carona para o trabalho, de manhã, e, depois, em vez de ficar ociosamente parado num estacionamento, daria uma carona a alguém da sua família ou qualquer outra pessoa da sua vizinhança, dos seus amigos das mídias sociais ou de sua cidade.”

Alain Kornhauser: “Se você está na avenida Michigan, em Chicago, é uma beleza. Mas a um quarteirão dali, só tem estacionamentos. Os quarteirões atrás da avenida Michigan são basicamente um grande estacionamento, para aqueles que vão até a avenida Michigan. Com carros autônomos, não haverá necessidade destes estacionamentos e, de repente, toda essa terra ressurgirá. Há tanta coisa para ser feita com todo esse espaço: nós precisamos de muita gente criativa para pensar e refletir sobre o que esse novo espaço significa.”

Garry Tierney, arquiteto de Projeto Sênior, Perkins + Will: “A característica proeminente aqui é que os carros autônomos, sem motoristas, levam em conta um modelo de propriedade compartilhada. Nós fizemos um estudo e uma apresentação para a SPUR (uma empresa de São Francisco, de pesquisa e planejamento urbano, sem fins lucrativos) e estudamos as eficiências que os carros autônomos trazem para as ruas, que pode ser algo em torno de 400% menos tráfego de veículos. Vamos ser conservadores e dizer que eles trariam 200% de aumento de eficiência. Se você aplicasse isso a toda a cidade de São Francisco e criasse uma dieta para as ruas que refletisse essa redução, você ganharia uma área equivalente a 1 e 1/4 do Golden Gate Park [ou 3 Parques do Ibirapuera]. E isso é muito espaço público.”

Carlo Ratti: “Do ponto de vista da arquitetura, a cidade do amanhã não diferiria fundamentalmente das cidades de hoje – tanto quanto a Roma antiga não difere muito das cidades que nos são familiares hoje. O que mudará, no entanto, será a experiência que teremos com a cidade – especialmente do ponto de vista das viagens.”
Garry Tierney: “Neste ambiente, você não precisa estacionar seu carro, ele estacionará por si mesmo, portanto, você pode pensar em recapturar o espaço das vagas da frente de um prédio até a frente do outro prédio. Sim, isso se transforma num espaço dominado pelo pedestre, onde os veículos terão um papel subsidiário. Nós veremos um crescimento massivo na quantidade de espaço cedida ao domínio público e um imenso aumento na largura das calçadas, faixas de bicicletas e espaço para qualquer outra forma alternativa de transporte.”

Viagem de Bonde em São Francisco – 1906, clique para assistir no Vimeo.

Garry Tierney: “Já citei este exemplo antes: há um vídeo feito em São Francisco, em 1906, uma semana antes do terremoto. Alguém colocou uma câmera na frente de um bonde, que ia pela Rua Market para o Ferry Building. Frequentemente, as pessoas olham este vídeo em termos de arquitetura, como era a cidade naqueles tempos. Mas quando eu olho para esse vídeo, ele me mostra como as pessoas interagiam com o domínio público, antes do advento do carro. O filme mostra pessoas trançando entre cavalos, carroças e bondes. Há poucos carros na rua, e mais parece a louca viagem do Mr Toad’s Wild Ride na Disney. A parte instrutiva aqui é ver as pessoas caminhando sem estarem condicionadas a andar na frente dos prédios. Elas simplesmente usam o espaço da forma que querem. Até mais ou menos 100 atrás, era como todo mundo experienciava a cidade. Só recentemente, fomos treinados a andar obedientemente ao longo de uma estreita calçada, esperando o homenzinho do semáforo mudar de vermelho para verde para que possamos atravessar. Isso nos permitirá voltar a usar o espaço entre os edifícios como um real e verdadeiro domínio público. Essa parte, que é uma verdadeira volta ao futuro, é realmente apaixonante para mim.”

Trânsito Público: Fortalecido ou Ameaçado?

Paul Lewis, vice-presidente de Políticas, Eno Center de Transportes: “Eu acho que vai ajudar o transporte público em muitas formas. Os pioneiros, ‘early adopters’, poderiam muito bem ser donos de uma frota, como uma agência de trânsito. Se a economia de ônibus autônomos der certo, eles reduziriam despesas e, com esse ganho, colocariam mais ônibus nas ruas. O sistema de transporte em áreas urbanas densas realmente não pode dar certo sem transporte público ou veículos que possam carregar dezenas ou centenas de veículos. Simplesmente, não há capacidade de vias para que cada um tenha um veículo.”

Alain Kornhauser: “Na simulação que fizemos em New Jersey, considerando a habilidade de ir para a Princeton Junction ou outra estação de trem sem se preocupar em estacionar seu carro, os veículos autônomos aumentam as viagens de trem num fator de 5. Ou seja, em vez dos trens passarem a cada 30 minutos, teriam que passar a cada 5 minutos.”

Dr. Kara Kockelman: “Uma das razões que fazem as pessoas não usarem bicicletas é o medo dos carros. Com todos sendo tão multimodais, as bicicletas compartilhadas serão bem importantes.”

Um pesquisador do Centro de Inteligência de Veículos da Universidade Nacional de Seul, mostra o aplicativo de smartphone para o carro autônomo. AP Photo/Lee Jin-man

Um pesquisador do Centro de Inteligência de Veículos da Universidade Nacional de Seul, mostra o aplicativo de smartphone para o carro autônomo. AP Photo/Lee Jin-man

Como prevenir a abordagem “Vencedores e Perdedores” aos Transportes

Garry Tierney: “Temos que começar a pensar em consequências não intencionais. Onde estarão estas garagens? Onde armazenaremos todos esses carros? Precisamos tomar cuidado para não começar a colocá-los em comunidades onde a terra tem baixo valor. Os ricos teriam um bucólico domínio público, enquanto as áreas pobres estariam cercadas de veículos autônomos, como um enxame de moscas. Temos que ter consciência e fazer de tudo para que isso não aconteça. Hoje, este admirável mundo novo nos é mostrado com jovens entre 20-30 anos conectados, chamando seus Ubers e se divertindo, e, ali na esquina, a faxineira está em pé esperando o ônibus que nunca chega. Nós simplesmente não podemos deixar isso acontecer. Se estamos nos movendo em direção a um sistema de trânsito autônomo e descentralizado, nós precisamos nos assegurar de que a acessibilidade é para todos, de que haverá um conceito de equiparação social no design.”

As cidades se tornarão mais densas ou mais espalhadas?

Alain Kornhauser: “O que acontece com as Levittowns do mundo? Pra mim, a implicação é, considerando a densidade residencial dos lares desejáveis, eu acho que voltaríamos para as fileiras de casas, como as dos anos 1920. Não seriam necessariamente arranha-céus, como uma Pequim.”

Paul Lewis: “Se você tem políticas que encorajam o acúmulo e casas para famílias de solteiros, e esse estilo de vida continua a ser acessível, é o resultado que você terá. Tem a ver com o jeito que formatamos políticas.”

Garry Tierney: “O argumento que se discute é que, com essa tecnologia, as pessoas podem se mudar para qualquer lugar da Bay Area [São Francisco]. Discute-se que mais gente vai morar mais longe dos centros, nos subúrbios. As pessoas fundamentalmente escolhem morar onde elas querem morar. Eu acho que, em geral, nós estamos vendo uma situação agora na qual as pessoas querem viver na cidade, sem precisar da infraestrutura de trânsito, autônoma ou não. Não importa o barulho que essa tecnologia faça. Eu acho que muita gente vai querer viver num bairro central por muitas razões que vão muito além do trânsito.”

Dr. Kara Kockelman: “Uma grande preocupação que tenho com as cidades, estados e regiões é o excesso de viagens. Eu acho que haverá regras para enviar um veículo vazio ou quantas viagens vazias um operador de frota pode gerir. Nas simulações que fizemos em Austin, nós constantemente vemos 8% ou menos milhas viajadas com veículos vazios. Se as pessoas compartilharem, isso reduzirá as viagens com carros vazios. Mas se os carros derem a ideia às pessoas de que elas podem ir mais longe e mais facilmente, isso é uma grande preocupação. Acho que precisaremos de um modelo de preço baseado em créditos de congestionamento.”

Paul Lewis: “Nos esquecemos que para um carro nos levar de um ponto A ao B, por si só, há um caminho muito, muito longo. No curto prazo, vemos carros andarem com autonomia, num ambiente controlado, em rodovias e vias expressas. A condução autônoma já começou em faixas adaptadas e com controle de velocidade de cruzeiro. Fazer longos deslocamentos mais fáceis poderia aumentar o número de pessoas pegando o carro para ir trabalhar, porque é mais fácil, e aí haveria mais gente precisando de mais vagas de estacionamento.”

Veja o artigo original:
http://www.curbed.com/2016/2/25/11114222/how-driverless-cars-can-reshape-our-cities


23
Mar 16

Prometido e Cumprido!

AQUI!

Não está sendo fácil, não. Está sendo muito gostoso TER que gravar todas as semanas.
Tudo para fazer valer a promessa de publicar 2 novos vídeos toda semana. Hoje, cumpro a promessa semanal em dobro: 4 vídeos! Estreia ‘Dica de Mestres’ e 3 novas ‘Dicas do Futuro’: 29, 30 e 31. Pra quem está acompanhando, são 50 dicas. Aqui vão elas!

Gostou? Vá lá e assine meu canal.

E aqui a dica #31:

Até a próxima semana!
Nesta não tem gravação por conta do feriado, mas já fiz um estoque de vídeos para estes casos. Então, depois da sua ótima Páscoa, vai ter mais 2 novos vídeos!

Se você não viu o vídeo de lançamento, cá está:

Espero que você goste!

CRÉDITOS: Co-Produção FIVE + NANU. Conteúdo Beia Carvalho. Direção e Edição: Sanna Mancebo. Direção Geral: Galileo Giglio. Identidade Visual: Guido Giglio. Cabelo e Make-up: Lira Chan.


18
Nov 15

Futuro, Disrupção, Beia Carvalho e Estadão

Beia Carvalho entrevistada no Estadão, evento Eurofinance, nov 2015.

Beia Carvalho entrevistada no Estadão, evento Eurofinance, nov 2015.

Abrir o Estadão e dar de cara com sua entrevista.

É, não tem preço. É demais! Ler todos os elogios dos amigos, conhecidos e desconhecidos nas redes sociais, também não tem preço. E pra coroar, tem a declaração do seu primogênito:
“A vida inteira as pessoas me falaram ‘Sua mãe é demais!’, e por muito tempo (na adolescência principalmente) eu não dei muita bola. Mas agora que eu tenho acesso à internet, descobri que ela é realmente demais! Parabéns, mã! Você é demais!!! (e sem aspas!).” E chega de autopromoção, aqui está a entrevista.

Futuro das corporações depende da força de inovar

A publicitária Beia Carvalho fundadora e presidente da empresa 5 Years From Now, pesquisa o futuro e os rumos das inovações. Durante o evento da Eurofinance sobre Gerenciamentos de Riscos, ela apresentou a palestra “O futuro é agora. Planejamento para a disrupção”. Leia a entrevista:

Dizem que 2016 será um ano pior do que 2015. As demissões continuam em ritmo acelerado e o custo de vida sobe. Nesse cenário, em que as pessoas e as empresas estão mais preocupadas em sobreviver, como as companhias devem se preparar para o futuro?
Entender (de verdade) o mundo virtual. Daqui pouquíssimos anos, apenas as gerações que tem hoje acima de 35 anos falarão em mundos on e off-line. Para 20% da população o mundo é um só. O Magazine Luiza, por exemplo, está invertendo a ordem varejista, ao colocar o varejo negócio como um negócio virtual que tem pontos físicos. E não o contrário.

Não sabemos como será a Internet em 2030, mas sabemos que no futuro, não vamos “ligar” a internet. Como diz Ivan Matkovic, da Spendgo, “a internet simplesmente existirá como parte de nossas interações rotineiras. Será como o ar que respiramos. Um componente crítico da vida, mas sua presença não será necessariamente reconhecível ou identificável.”

A conectividade global – a entrada de novos 3 bilhões de pessoas a uma velocidade de 1 Megabit por segundo – vai gerar 6 bilhões de hiper-conectados e trilhões de novos dólares fluindo para a economia global, graças às iniciativas de grandes players como Facebook, SpaceX, Google, Qualcomm e Virgin para 2020. Acredito que as conexões wifi grátis acontecerão até antes do prazo.

Beia Carvalho palestrando no evento da EUROFINANCE.

Beia Carvalho palestrando no evento da EUROFINANCE.

Qual seria esse investimento que as empresas não poderiam deixar de fazer, mesmo com a queda de faturamento? O que a tesouraria e as finanças deveriam ter em mente?
Para quem atua no mundo das moedas, conhecer, aprofundar, aprender e investir na tecnologia que está por trás da moeda virtual Bitcoin. Recomendo o artigo do The Economist e também publicado pelo Estadão sobre a Blockchain, em 31 de outubro. A inovação está em cada aspecto dessa tecnologia que subverte grandes dogmas. Possibilita a pessoas que não se conhecem, nem confiam uma nas outras, construírem uma contabilidade segura e confiável. Sei que em seguida vem a pergunta: como um sistema aberto a consulta, descentralizado, transparente e acessível pode ser ao mesmo tempo confiável e seguro? A resposta é inovação. Este assunto está nas rodas de valor de hoje e continuará na moda quando se projeta o mundo para 2040. Quem souber antes e “infectar” mais e melhor o ambiente, chega no futuro mais rápido. Não creio no conhecimento reservado ao departamento de TI. Acredito sim, na discussão da tecnologia sendo disseminada e compartilhada democraticamente na empresa.

A volatilidade econômica virou norma. Como a tesouraria e as finanças lidam com isso? Há um limite para a política de corte de custos? Como o planejamento pode substituir os cortes?
Quando a volatilidade vira norma, o planejamento não substitui cortes. A perseguição e a ganância por uma nova mentalidade para a empresa são imperativas. Empresas do futuro são aquelas que tem uma arquitetura com espaços férteis para que a inovação brote. Não há garantia que ela dê frutos. Inovar é necessário, não é opção, principalmente quando as crises deixaram de ser eventuais e viraram cena da vida cotidiana. O relatório do Bank of Merrill Lynch de abril de 2015 identifica 3 ecossistemas de disrupção criativa: a Internet das Coisas (7 trilhões), a Economia Colaborativa (450 bilhões) e os Serviços On-line (500 bilhões).

Paradoxalmente, o PIB pode estar escondendo uma economia mais pujante. Segundo o relatório, com o crescimento da Economia Colaborativa, mais transações não são diretamente monetizadas, fazendo a parte incontável do PIB crescer. Isso é um desafio na utilidade das estatísticas dos PIBs. Ou seja, a economia pode ser maior e estar crescendo mais rápido que os números sugerem”.

Em época de crise, a falta de perspectivas sempre abala a confiança no futuro. Imagino que isso seja um problema para as empresas. Como evitar esse cenário?
As empresas devem selar sua suprema parceria: construir plataformas interativas que acolham as discussões, as soluções, as inovações e as invenções com as quais a sociedade está engajada. Proporciona-se um espaço de confiança e esperança, o primeiro um valor, e o segundo um bem, ambos em falta neste enganado e desiludido Brasil. Não é fácil para as empresas criarem esses espaços sem se absterem de subverter a conversa. Tendenciar a conversa seria fatal e a sociedade sumiria desta rede de discussões.

Qual é a mensagem que a senhora gostaria de deixar para os homens e mulheres das finanças?
Conhecer, aprofundar, estudar, aprender mais e mais além e compartilhar.

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Explique o conceito de disrupção. As empresas deveriam ter uma área de planejamento que fosse além da questão financeira? Como isso se daria?
Uma inovação disruptiva substitui e elimina o que a antecedeu. As empresas tem de investir em espaços permanentes de dissidência ativa, onde ideias heréticas e divergentes possam ser discutidas para serem acolhidas ou destruídas. “Não temos este tempo para perder”, é uma desculpa do século passado. Para começar as empresas precisam entender criteriosamente os conceitos de inovação, imaginação, criação, exponencialidade, recursos finitos e abundância. Muitos destes conceitos estão embolados e servem de bloqueios à inovação. Por isso, é tão fácil falar sobre inovação e tão difícil inovar.

Investir na investigação do futuro, nos leva à poderosa combinação entre inteligência artificial (AI) e a nova safra da robótica, que varrerá da face do mercado 35% dos trabalhadores do Reino Unido e 47% nos Estados Unidos, incluindo postos de colarinho branco, segundo o relatório de 300 páginas do Bank of Merrill Lynch.

NOTAS:
1. Texto da entrevista publicada em 18/11/2015. Publicada no Caderno de Economia e Negócios Estadão e produzida por Estadão Projetos Especiais, para meu cliente Eurofinance.

2. EuroFinance é uma empresa do Grupo The Economist, líder mundial em conferências e seminários sobre gestão financeira e de tesouraria. Realiza mais de 50 encontros na área, em diversos países. Fui convidada a palestrar no evento Gerenciamento Internacional de Tesouraria, Caixa e Riscos para Empresas no Brasil, em São Paulo, 10-11 de novembro 2015, que reuniu mais de 400 profissionais da área financeira. Palestra “O futuro é agora. Planejamento para a disrupção”


12
Jul 15

“Peak Car”: a chegada da decadência do Carro?

Car Peak, artigo do futurista Thomas Frey

Car Peak, artigo do futurista Thomas Frey

Em que ano o número de carros do mundo vai atingir seu pico e as vendas de veículos começarão a declinar?

Por mais surpreendente que seja, isso já está acontecendo nos EUA! As pesquisas mostram que as economias mais ricas já atingiram o “peak car,” o ponto de saturação do mercado caracterizado por uma desaceleração sem precedentes tanto no crescimento de proprietários de carros, quanto no total de quilômetros rodados e nas vendas anuais.

Por décadas, o tráfego de veículos cresceu numa velocidade assombrosa. Mas isso tudo mudou em 2007. Alguns se referem ao fato como uma tempestade perfeita combinando colapso econômico, revolução digital e enormes mudanças no estilo de vida urbano.

Muitas startups surgiram nessa época, na área de transporte alternativo, como Zipcar (ZazCar, no Brasil), Uber, Lyft, e SideCar. Junte tudo isso ao surgimento de carros conectados, aumento de carros elétricos, carros autônomos, declínio da natalidade, e o crescente congestionamento das vias expressas em quase todas as grandes cidades do mundo.

Indicadores mostram um quadro muito claro da indústria automobilística para os próximos anos, quando o resto do mundo também atingirá o tal pico. Mesmo contando que o continente africano com seus altos índices de natalidade e infraestrutura subdesenvolvida está longe de atingir o pico automotivo, as atuais mudanças no jeito de pensar o transporte acionaram o alarme por toda a indústria automobilística.

Mas como se dará essa transformação?

Em apenas pouco mais de uma década, ser proprietário de um carro será relegado a um hobby, ou ao mercado de luxo, algo parecido com ter aviões ou cavalos.

Ter um carro e ser responsável por toda a chatice que vem com ele, como financiamento, licenciamento, impostos, consertos, seguros, combustível, troca de óleo, lavagens, e submeter-se a todas as 10.000 leis de trânsito,  estacionamento, velocidade, ruídos, poluição, sinalização e semáforos serão, brevemente, coisas do passado.

Na realidade, possuir um carro passou a ser uma experiência dolorosa. Do vendedor da concessionária, o cara que faz o financiamento, aos guardas de trânsito te vigiando a cada momento, fazem os compradores de carro se sentirem como ratos com um montão de urubus circulando acima de suas cabeças.

As vendas da indústria automobilística começaram a sua lenta marcha para a inexistência.

As pessoas aguentaram tudo isso, porque não tinham nenhuma outra boa opção. Mas as novas opções já estão aqui. E muitas outras estão chegando. [...]

Minha intuição é que num mundo onde o transporte passa a ser on-demand, a indústria automobilística será paga por quilômetro rodado, e mudará seu foco para veículos duráveis, capazes de viajar por mais de um milhão de quilômetros. Menos veículos, que durarão muito mais, vão gerar uma equação muito mais lucrativa para a indústria automobilística.

Os perdedores neste cenário serão as companhias de seguros e as financeiras, e toda a rede de concessionárias, que dependem de vendas. Ao mesmo tempo, guardas e juízes de trânsito, estacionamentos, e milhares de outros pequenos negócios que sustentam nosso atual mundo centrado em humanos dirigindo carros.[...]

Carro Autônomo Google

Carro Autônomo Google

Como sempre, muitas coisas podem dar errado, no caminho. Hackers podem fazer carros sem motoristas bater um contra o outro, sindicatos podem proibir alguns estados de ter carros sem motorista, protestos de pessoas que perderam seus empregos, ou carros sem motoristas sendo usados em ataques terroristas, são algumas das ameaças potenciais deste futuro cenário.

O caminho do progresso nunca é fácil, portanto espere muitas coisas darem errado ao longo desta estrada.

No entanto, eu vejo o “peak car” como um estágio muito positivo. Mas eu adoraria ouvir sua opinião. Isso é bom? Estaremos todos nós usando carros sem motorista na próxima década? O “pico do automóvel” vai acontecer nos próximos 10 anos, e se não acontecer, por que será que não?

NOTAS:
Escrito pelo futurista Futurist Thomas Frey, autor de “Communicating with the Future” e traduzido parcialmente e livremente por mim.

Para acessar o artigo original:

http://www.futuristspeaker.com/2015/07/the-coming-of-peak-car


8
Mar 14

2030: Ah não, me recuso a ver esse futuro!

Meu artigo hoje no PropMark em comemoração ao Dia Internacional da Mulher.

Samanthas & Rachels

Samanthas & Rachels

O que a linda e graciosa feiticeira Samantha, a bela adolescente androide Rachel, de Blade Runner, a mega inteligente e bem humorada Siri do iPhone e arrasadora robô Scarlett Johansson, do filme ELA têm em comum? Todas elas são absurdamente bonitas, perfeitas, poderosas – e irreais. São telas de projeção. E personalizam a suprema fantasia masculina de mulheres encantadoras, fortes e poderosas, e que desistiram de tudo por amor – a eles.

Samantha é uma bruxa de 3.000 anos, que abriu mão de sua independência e carreira para se realizar como esposa e dona de (uma linda) casa, nos arrumadinhos subúrbios americanos dos anos 60. Rachel é uma perfeição da engenharia genética, que desenvolve emoções humanas, que “enfeitiça” Deckard, seu par romântico, a ponto dele desistir de sua tarefa de matá-la para juntos fugirem para o norte, numa Los Angeles de 2019. Siri é uma palavra norueguesa que significa “linda mulher que te conduz à vitória”. Sabia?

Scarlett Johansson, que no filme ELA interessantemente se chama ‘Samantha’, nunca aparece na tela: ela é um inteligente e envolvente sistema operacional telefônico, que deixa o solitário escritor Theodore de quatro por sua voz sedutora, sua perspicácia, sensibilidade, acolhimento, sensualidade e sua arte. O filme ELA, também se passa em Los Angeles, um pouco mais no futuro, em 2030.

Para trazer esse “futurismo”, o visionário diretor Spike Jonze nos traz uma Los Angeles filmada na futurista Shangai dos arranha-céus. Longas passarelas elevadas, trens e ausência de carros, nos levam a crer que ELA realmente se passa no futuro. Mas duas coisas me fazem crer que o filme faz a crítica do presente.

A primeira, é que após o choque inicial de acompanhar a naturalidade do relacionamento amoroso entre o escritor e a robô, caímos em si que esta é a forma como nós já estamos lidando com todo esse mundo virtual que nos cerca!

A outra, é quando conhecemos Amy, a vizinha de Theodore, uma nerd que está desenvolvendo um game chamado “A Mãe Perfeita”. No jogo, a mãe perde milhares de pontos porque alimenta os filhos com açúcar refinado. Mas ela pode se redimir e ganhar pontos ao fazer suas mães rivais sentirem inveja de seus cupcakes. CUPCAKES! Dá um tempo! Quase tive um ataque ao ver retratado em 2030, as mesmas pressões que as mães enfrentaram e ainda enfrentam para fazer de tudo para ser a Mãe Perfeita.

Depois que me livrei de um acesso de ódio ao diretor, comecei a entender a presença, no filme, deste sufocante game da condição feminina. É um alerta geral! Se não tomarmos em nossas mãos femininas a tarefa de virar esse jogo, os 16 anos que nos separam do filme ELA vão voar. E, quando menos percebermos, BUM! Estaremos cara a cara com 2030, com as mesmas velhas e irreais expectativas em relação às mulheres e mães, que não trazem felicidade para nenhum dos lados envolvidos.

Dá pra fazer muita coisa, de hoje até lá, se pensarmos em novas possiblidades de criar e educar as nossas crianças. Em 2030, tenho a certeza que esses jovens estarão namorando de um jeito diferente e terão expectativas mais construtivas em relação aos diferentes sexos. Não gosto de pensar que essa é uma luta de mulheres. Penso que homens e mulheres, juntos, deveriam se unir para um mundo mais harmônico. Vamos nos magnetizar pela utopia de um mundo mais feliz – e não por um mundo de mulheres e mães perfeitas.

Há uma correlação entre o feminicídio – a violência fatal contra a mulher – e esses modelos da mulher perfeita perpetrados em nossa sociedade? Mulheres lindas, inteligentes, que completam seus homens como a Voz Robô de ELA, que compõe músicas ou tocam piano como Rachel, de Blade Runner? Acredito que sim. Porque as pesquisas mostram que os parceiros íntimos são os principais assassinos de mulheres, no Brasil. Somos a 7a. economia do mundo e o 7o. país que mais mata mulheres numa lista de 87 países! A cada 1 ½ hora acontece um feminicídio no Brasil.

A visão de Melinda Gates, Fundação Gates, sobre o futuro da mulher para 2030 é que “mulheres e meninas não encontrarão limites para as suas aspirações no futuro, não importa onde tenham nascido”. É uma poderosa visão, daquele tipo que emociona, envolve e empurra a gente a fazer valer. Em seu site Impatient Optimists (otimistas impacientes) há uma coleção de visões, ela dá essa cutucada: “Qual é a sua esperança para 2030? Compartilhe a sua aqui: www.myhope2030.com”.

Comecei comparando as feiticeiras-robóticas com modelos ilusórios e irreais da mulher contemporânea. Refletindo sobre todas elas durante os dias em que escrevi esse texto, um feliz insight me arrebatou. A ideia de que podemos, sim, aprender uma lição pra lá de importante e transformadora com elas. Todas tem emoções. Ao se humanizarem, elas evoluíram e conquistaram uma qualidade que nos distingue dos androides: o livre arbítrio. A Feiticeira Samantha quer ser a dona de casa e mulher do mortal publicitário Darrin Stephens; a Rachel quer aproveitar seus últimos anos da limitada vida de androide num grande romance com Harrison Ford; e a Samantha de ELA seduz e fala ao mesmo tempo com mais de 8000 homens. Rs.

É isso! Livre-arbítrio. Ser mulher não é cumprir uma lista de tarefas e tentar preencher expectativas de perfeição impossíveis de serem cumpridas. Livre-arbítrio é ser livre para determinarmos nossos próprios destinos, para almejarmos a possiblidade de um futuro melhor para homens e mulheres, crianças, filhos, vizinhos, sobrinhos, netos, amigos, clientes. E, muito brevemente, a felicidade de nossos próprios avatares. Ah, mas isso é conversa pra outro artigo.

Em 2030, teremos mais mulheres, mais cabelos brancos e uma maior diversidade étnica no mercado de trabalho. Esta mudança sugere que os líderes do futuro terão que mudar a sua cabecinha em relação às mulheres, à idade e à diversidade – ao mesmo tempo! Faltam apenas 15 anos e 265 dias para 2030.

Beia Carvalho é palestrante futurista da 5 Years From Now®, ex-publicitária.2030: queremos outro futuro para as mulheres

2030: queremos outro futuro para as mulheres

Notas:

A Feiticeira (Bewitched), Sol Saks, 1964-1972.
Siri, assistente pessoal, adquirido pela Apple, 2008
Blader Runner (Caçador de Androides), Ridley Scott, 1986.
ELA (Her), Spike Jonze, 2013.
Pesquisa Deloitte: Women’s agenda, http://www.womensagenda.com.au
Melinda Gates: http://www.impatientoptimists.org
IPEA Feminicídios no Brasil, http://www.ipea.gov.br, 2013.