CRUZEIRO DO SUL É MEMÓRIA AFETIVA?

Por volta de 1965, meus pais compraram um terreno, no então chamado Altos da Cidade. A cidade é Bauru. Adoro dizer que sou paulistana, mas cheguei na cidade que vivi até 17 anos, no dia em que completei 1 ano de vida. Por que Bauru? Até hoje, nenhuma explicação convincente. Nenhum parente, nenhum amigo, nenhuma grande oportunidade de ficar rico. Simplesmente, meus pais resolveram picar a mula da Vila Buarque, bairro paulistano que teve grande papel na minha vida. De pequena até hoje.

Demorou até a casa ficar pronta. Ninguém acredita, mas de 1955 a 1967, eu vivi num prédio de apartamentos em Bauru. Mais pra vida de paulistano que de bauruense. Nem tanto.

A começar da vida social das crianças e adolescentes que se arrastava, se movia e progredia entre apartamentos de portas abertas, jogos de queimada na travessa da rua principal e minhas grandes diversões: jogar/trocar búricas (bolinhas de gude), barquinhos de papel nas (até hoje famosas) enxurradas de chuvas e mocinho & bandido nas ruas de domingo.

E tudo isso para falar do céu de hoje, na cidade de São Paulo. Hoje é dia 14 de abril de 2011. E a temperatura, agora, à meia noite, quente, sem vento, é de 23o.! Lembra praia, ou pra quem viveu, lembra Bauru. É aquela temperatura que faz você se sentir totalmente à vontade, não se distingue corpo e mundo exterior, porque entre você e o meio ambiente não há barreiras, nem desconfortos térmicos. Eu A-DO-RO!

Hoje, nesta “noite bauruense”, vejo da janela do meu quarto uma escancarada constelação do Cruzeiro do Sul e sua irrequieta Intrometida. Aprendi muito – o que sei – sobre o céu, quando meus pais compraram aquele terreno. Nas noites quentes de Bauru (todas) íamos de fusca até um descampado em frente ao terreno para apreciar o céu. Só vi um assim – tão escuro e com estrelas tão brancamente contrastantes e brilhantes -, num lugar do mundo: Honduras. De tirar o chapéu!
E aí meu pai ia apontando: 3 Marias, Triângulo Austral (cartografada, nos 1590, por holandeses e nome da minha equipe quando fui Bandeirante) e a mais bacana de todas: o Cruzeiro do Sul! Daqueles idos e até hoje, o cruzeiro me acompanha. Se olho pro céu, é para achar esta constelação. Quando fui em1978 de trem e ônibus de São Paulo a São Francisco, nos EUA, achei que o Cruzeiro do Sul nunca ia sumir, que aquela coisa que o céu muda, quando mudamos de hemisfério era balela. Demorou! Foi preciso passar Panamá e quase toda a América Central e seus deslumbrantes céus para, um dia, ploft, vê-lo sumir na orla do horizonte sulino. Acabou! No more Southern Cross.

Mas a intrometida está aqui, agora, invadindo o quarto. Tô vendo ela da minha cama. A intrometida é aquela, às vezes tão difícil de identificar, mas que existe pra comprovar que de todas as cruzes possíveis de serem traçadas por 4 estrelas no céu, esta é definitivamente a inimitável Constelação do Cruzeiro do Sul.

Hoje é aniversário da minha amiga Vânia Ferrari. Intrometida. Veio pra Terra pra não ser confundida. Ela é definitivamente uma constelação.

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