Silvana, minha melhor amiga.

Silvana e Beia, Bauru

Silvana e Beia dando umas bandas pelas ruas de Bauru

Foi a minha melhor amiga.
Cheguei em Bauru no dia de meu aniversário de 1 ano.
Ela tinha 2, como observou minha mãe ao me dar a notícia ontem: “Conheci a Silvana com 2 anos, tão lindinha, quando chegamos a Bauru, há exatos 60 anos (14 de março de 1955).

Eram todos loiros na família, numa cidade onde ninguém era loiro. Quase ninguém, porque ela se casou com Paulo, talvez o outro único loiro da cidade. Ela tinha 2 irmãs mais velhas. Hoje seriam fashionalistas. Não sei quantas horas passamos juntas naquele enorme quarto onde Sandra e Sueli se arrumavam durante horas e horas, para ir aos bailes e festas nos fins de semana. E quando chegou a nossa vez, era ali que nos arrumávamos. Porque todo o frisson estava ali. O guarda roupa ia de fora a fora em uma das paredes e era repleto de roupas, acessórios, bugigangas, lenços, espelhos e muita bijuteria. Silvana, alta, linda e loira, sempre gostou dos brilhos, das grandes bijus, das flores. E tudo que ela vestia ficava lindo naquele corpão! Era exótica. Uma palavra que meu pai adorava falar para crianças, porque elas não sabiam o significado dela.

Silvana, a 1ª da direita para esquerda ao lado de seu marido Paulo. Seguida da irmã Sueli, cunhada Regina e meus pais, Agarb e Jeanete.

Silvana, a 1ª da direita para esquerda ao lado de seu marido Paulo. Seguida da irmã Sueli, cunhada Regina e meus pais, Agarb e Jeanete.

De todos os eventos, o Carnaval era de longe o mais importante, o mais gostoso e o que ocupava nossas mentes antes, durante e depois. Antes, porque sempre fazíamos blocos temáticos entre os amigos. Meus pais sempre adoraram Carnaval e minha “tia” Dulce, mãe da Silvana, também gostava. Mas não dançava. Se divertia da mesa. E sempre nos contava como era bom quando o Carnaval tinha lança-perfume.

Carnaval em Bauru. Da esquerda para direta, minha tia Eune, meu tio Zézinho, minha mãe Jante e pai Agarb.

Carnaval em Bauru. Da esquerda para direta, tia Eune, tio Zézinho, minha mãe Jeanete, pai Agarb e tia Dulce.

De tudo o que fizemos juntas na vida, nadar na Hípica, sem dúvida, ganhou de longe. Íamos de ônibus, sozinhos num bando de umas 10 crianças de todas as idades e ficávamos dentro da água a tarde inteira. Bauru era muito mais quente que hoje. Se dá pra imaginar! Lembro-me dos longos cabelos verdes, resultado do cloro desgraçado da piscina que “tingia” o cabelos das loiras. Um dia Silvana descobriu que lavar o cabelo com OMO tirava o verde e o cloro. E passamos a usar sabão em pó para lavar as madeixas. Que divertido!

Não estudávamos juntas. Ela foi pro Colégio das Freiras. Coitada! Não sei como suportou. Às vezes, penso que suportava as exigências e desmandos das freiras, porque estava ali, só com o o corpo. A alma era artista. Desde pequena, pintava muito e muito bem. Fazia bolos de madrugada. Lia livros inteiros de madrugada. Acordava tarde. Muito tarde. Tudo na vida dela era diferente da minha. Foi a minha melhor amiga enquanto convivemos. Um dia, não nos vimos mais. Ontem à noite, soube da tragédia.

Anos mais tarde conheci o Pedro, aqui em São Paulo. Era como olhar para ela. Ele tem a alma de artista. Não sei se também prefere a noite ao dia. Tem muito da mãe. E, por acaso dos acasos, conhece meu filho Galileo e se dão bem.

É a primeira amiga que perco. Assim, amiga mesmo de infância, adolescência e de vida adulta. Não é fácil.

Sim, ela foi uma mulher disruptiva. Viveu intensamente a vida. Isso é bom. Isso é o que importa: vivê-la.

E como Pedro postou ao lado de uma linda foto dela: “o céu acaba de ganhar mais uma estrelinha, obrigado mãe, te amo.”

Eu também, Silvana.

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