
Tarantino e Spielberg
Assim que você deixa a sala, já está todo mundo querendo falar mais que a boca sobre Django: as músicas, o ator coadjuvante – que parece ser mais principal que o protagonista -, o diabólico DiCaprio, o irreconhecível Samuel Jackson, as brutais cenas, que mais acontecem na sua cabeça que na tela, e mais um vinho, e mais café e o papo não termina. É muito Tarantino pra pouca noite.
Na maratona de feriado, vi Lincoln primeiro. Recomendo fortemente o contrário: Tarantino pra abrir o apetite, Spielberg para ser degustado de sobremesa.
Pensei em escrever sobre cada um dos 2 filmes, em separado. Mas com Django com 5 indicações ao Oscar e Lincoln com 12, já tem muito material disponível pra ser lido, quer seja como história do cinema, história americana ou história da democracia.
Voltando à sequencia dos 2 filmes, note que eles se passam com meros 7 anos de diferença. O primeiro, Django, situado em 1858, apenas 2 anos antes de começar a sangrenta Guerra Civil americana. E o segundo, Lincoln, fixado nos primeiros 4 meses do ano de 1865. Os trailers estão abaixo.
A guerra durou exatos 4 anos e deixou um absurdo rastro de mais de 600.000 mortes. Muito além da Guerra Civil Espanhola ou da recente Guerra do Vietnã, quando 58.183 americanos morreram, menos de 10% que nessa guerra de secessão entre o norte, a União, e o sul, os Confederados.
Nos 2 filmes, a escravidão. E todo o modus vivendi que dela deriva. No primeiro, a população pasma ao ver um negro montado num cavalo. No segundo, uma população de 200.000 negros está empunhando uma arma para defender a União! No primeiro, vemos mais do sul dos Estados Unidos – Texas, Tennessee e Mississipi. Em Lincoln, mais do norte, a Casa Branca e o River Queen, em Virginia. E é inacreditável pensar que a abolição possa ter acontecido, quando toda a economia do sul estava baseada no trabalho escravo. É só a gente inverter os pontos cardeais, e imaginar DiCaprio, um coronel do nordeste. Sim, também é chamado de “painho”, mas como é americano é Big Daddy. Divaguei.
Mas para além da escravidão, o cerne, o que realmente vemos nos 2 filmes é o poder da negociação, a política do mundo dos homens. É disso que o ex dentista Dr Schultz e o presidente Lincoln tratam. Magnificamente!
Dr King Schultz, o irrepreensível Christoph Waltz, é um eloquente negociador. Usa as palavras, cena a cena, tão bem, rápida e eficazmente quanto aperta gatilhos. Lincoln, só atira com as palavras e com aquelas histórias compridas, que no nordeste chamam de anedotas. É, este Lincoln de Spielberg tem humor. E Waltz, desde Bastardos Inglórios, se diverte e continua nos divertindo com tantos salamaleques de vocabulário. O primeiro, ganha a vida caçando os procurados pela justiça para receber a recompensa por suas cabeças. Haja estratégia de negociação para achar, matar e entregar os procurados. E aí, Tarantino é mestre nos diálogos. E se até então, esse não era o forte de Spielberg, agora é. É tanta informação que sai da boca de Daniel Day-Lewis em sua aclamada voz de Lincoln, que vira uma gincana apreender todos os seus significados.
Lincoln, tem um problema tão grande e insolúvel na mão que ninguém acredita que ele possa prosseguir com sua teimosia e ter sucesso. Um, não, ele tem 3 problemas. Tem que acabar com a Guerra Civil antes que ela acabe com o país; tem que conseguir a maioria para aprovar a 13a. emenda à Constituição – a abolição da escravatura – e, por fim, tem que se reeleger. Para conseguir apoio para passar a emenda, precisa por um fim à guerra. Se acabar com a guerra não consegue por um fim à escravidão. Se acabar com a escravidão e não acabar com a guerra, não se reelege. Catch 22. É como convencer um Sarney que acabar com a escravidão será bom para o clã. Se você não viu, vá. O cara era bom, mesmo!
O projeto de Tarantino começou em 2007, terminou o script em 2011 e começou a filmá-lo em novembro do mesmo ano, durante 130 dias. O primeiro script de Lincoln, do próprio Spielberg, é de 2002 e não fez a cabeça de Daniel Day-Lewis. O segundo é do ganhador do Pulitzer, Tony Kushner, de 2006, e foi filmado em 90 dias, no final de 2011.
Quem teve que ligar pra Daniel Day-Lewis e convencê-lo a aceitar o papel foi DiCaprio, o crudelíssimo Calvin Candie, de Django: “Daniel, você tem que reconsiderar, porque Steven realmente quer você no papel e não vai fazer o filme sem você.”
E, por fim, os 2 negociadores tem uma missão: aquela força que nos sacode e com força nos arremessa na direção de cumpri-la. Dr Schultz, depois de se dedicar à bem sucedida carreira de caçador de recompensas, embarca na missão de encarnar Siegfried, o herói que salva a mocinha, Brunhilde, na lenda escandinava. Lincoln não sabe o que acontecerá com os negros após a abolição e declara isso abertamente, numa conversa no pórtico da Casa Branca com a ama de quarto de sua esposa. “Freedom is first.” Mas o presidente sabe que essa é a sua missão. O que acontecerá no futuro não pode ser impedimento para adiar a Abolição.
São 2 obstinados.
E isso já tá muito longo, mas faltou falar que tanto Django quanto Lincoln tem a aquela moralidade cinza, circunstancial. Enfim, se você ainda não viu, vá. Primeiro Django, depois Lincoln. Ou, ao contrário, não importa. Vá.
Vale a pena ler:
5 regras de ouro de Tarantino, escrito por ele para o Daily Mail online, 12 de janeiro, 2013. http://www.dailymail.co.uk/home/moslive/article-2260197/Quentin-Tarantino-Django-Unchained-The-story-Western.html
Mike Fleming entrevista Spielberg: porque demorou 12 anos para encontrar Lincoln:
http://www.deadline.com/2012/12/steven-spielberg-lincoln-making-of-interview-exclusive
Tags: 5 years from now, beia carvalho, Christoph Waltz, DiCaprio, educação, evolucao, Futuro, guerra civil, guerra de secessão, Lincoln, negociação, nova era, reflexão, Spielberg, tais de souza, Tarantino, visão
Excelente post, completo,denso e define perfeitamente a riqueza de conteúdo dos dois filmes. Parabéns!
Valeu, Luciane! Deixe eu te dar uma dica. Vá até este site que se chama GRAVATAR: https://pt.gravatar.com. Ali, coloque seu nome, email e sua melhor foto de close-up. Assim, todas a s vezes que você fizer um comentário na rede, sua foto aparecerá no lugar da figura acima. Beijos e mais uma vez, obrigada!