I … o quê?

O que é o que é que apareceu mais que 30.000 vezes nos últimos relatórios americanos trimestrais e anuais; que drenou entre 1 e 10 milhões de dólares anuais das empresas listadas na Fortune 100; que criou novos cargos, departamentos e novas verbas; convulsionou o mercado editorial com uma avalanche de 255 livros publicados, somente nos últimos 90 dias e a despeito disso tudo trouxe resultados nada excepcionais?

Artigo sobre Inovação pro Lançamento da Revista TopIt

Artigo sobre Inovação pro Lançamento da Revista TopIt

Capa da Revista TopIt

Capa da Revista TopIt

É um conceito? Uma atitude? Um modo de pensar? É o poder da palavra? É moda? Vai passar?

O fato é que os números sobre a tal inovação não param de crescer, de qualquer ponto de vista que se analise. Exceto a inovação, mesmo! A busca pela receita infalível é perseverante e incessante e, contrariamente à redução de custos enfrentada em todas as áreas, um pedaço do paraíso parece existir para os afortunados Consultores de Inovação, que cobram de 300 mil a 1 milhão de dólares por projeto e para os Chief Innovation Officers – ou chefes afins -, que comandam as novas áreas de inovação dentro das empresas. Diga-se de passagem, que em uma pesquisa feita com 260 executivos globais, mais da metade disse que estes cargos, apesar de existirem em suas empresas, eram só “pra inglês ver”. *

Esses são fatos publicados este ano, no Wall Street Journal*. Mas você vai ver aqui, que neste métier, mudar de país, empresa ou de chefe, não muda muita coisa.

Neste ano, também fizemos nossas enquetes*. Numa delas, pedimos que todos os 60 funcionários de nosso cliente, respondessem a 3 perguntas: o que é inovação, um exemplo e se sua empresa havia alguma vez inovado na vida. A maioria esmagadora dos entrevistados aliou inovação a invenção. Seus exemplos foram o Telefone, a Lâmpada elétrica, o Iphone. É o que chamamos de inovação disruptiva, break-thru – aquela que quando vem, elimina do mercado o que a precedia. O exemplo perfeito é o DVD. Sua chegada é um tsunami em nossas fitas VHS, videocassetes, estantezinhas e caixas-porta-vhs. De um só golpe, toda uma indústria criada em volta do VHS, a partir de 1980, sucumbe na aurora dos anos 2000: de fitas magnéticas de 1/2 polegada à movelaria. Tá aí: as inovações disruptivas varrem do mercado o que as precedeu. Não há convivência. Em outubro de 2008, a distribuidora DVA entregou seu último lote com o epitáfio de seu presidente: “ele está morto, é uma tecnologia morta e qualquer coisa que tenha sobrado no estoque, nós daremos ou jogaremos fora.”

A primeira conclusão parece por si só já explicar o porquê as empresas falam, investem, mas não inovam! Se as pessoas acham que inovar é inventar invenções do porte da lâmpada elétrica, então inovar é coisa pra gênio. E gênio eu não sou e muito provavelmente, dado a escassez numérica deles, você que chegou até aqui nesta leitura, também não deve ser. Ou seja, nos pedem, nos pressionam, nos oferecem dinheiro por uma coisa que sabemos que somos 100% incapazes de ser: gênios! Simplesmente, no afã de obter a receita de como inovar, as empresas se esqueceram de combinar o que entendem por inovação. Faça o teste na sua empresa e depois me conte.

Ah, o motivo de haver perguntado se os tais funcionários saberiam citar uma inovação de sua empresa, era porque esta empresa havia começado suas atividades, a partir de uma inovação. Mas veja a ironia, por não ser percebida pelos funcionários como “invenção”, a maioria das respostas foi um sonoro “não”.

Conclusão: inovar é inventar, inventar é para gênios, não invento porque não sou gênio e minha empresa é lugar-comum, não me estimula porque nunca inovou!

Não estou com isso zombando da dificuldade da tarefa. Mas me parece básico que uma conceituação e definição clara do trabalho a ser desempenhado poderia ajudar e muito.
Acredito piamente que podemos estimular as pessoas a nossa volta a inovar.
Acredito piamente que nossos instintos querem o conforto das velhas certezas.
Acredito piamente que nos cercamos de ideias e pessoas com as quais já concordamos. E já nos ensinou Nelson Rodrigues: a unanimidade é burra. Mas como vamos inovar se ideias heréticas e dissidentes não são bem-vindas?

Tenho colhido bons resultados a partir de alguns poucos esclarecimentos sobre os 3 tipos de inovação e suas habilidades intrínsecas.
O primeiro já exemplificamos bem, a inovação por disrupção. A segunda, bastante mais democrática, exige de seus protagonistas coisas como imaginação, cérebro ligado para fazer novas combinações. Um novo olhar. E eu adoro o exemplo do papel higiênico Neve. Um produto democrático, para o qual olhamos desde que nos conhecemos por gente – e várias vezes ao dia. Então, um dia, alguém na Kimberly-Clark levou sua imaginação para futurar, num tempo e espaço onde tudo é possível, onde ideias heréticas são acolhidas e … i-no-vou!

Ele olhou bem para o buraco no centro do rolo e … Momento Eureka! Viu que embalavam e transportavam ar! Inovação: amassar o rolo até o buraco sumir. O consumidor dá um tapinha e o rolo volta a ter o seu útil orifício. Resultados: 18% de economia em embalagens. Posso ouvir vários leitores pensando: “ah, esta inovação eu posso fazer!”

E, por fim, a inovação por atraso. Viajou? Viu uma ideia lá fora que não tem no Brasil? Traga, implante, inove! Foi assim que as flores online vieram para o Brasil. Mudou de empresa? Sugira as “inovações” para a nova.

E para terminar, uma frase do professor Ademar Bueno***: Inovação é a nota fiscal!”. Traduzindo. Você imaginou, criou, prototipou e produziu. Ninguém comprou? Isso não é inovação. Isso é um pesadelo.

Criatividade é um modo de ser. Inovação um modo de fazer.

NOTAS:
* Números referentes ao mercado americano e publicados no Wall Street Journal, por Leslie Kwoh, em 23 maio de 2012.
** Trabalho da Consultoria de Negócios 5 Years From Now®
*** Ademar Bueno é Professor e Coordenador do Laboratório de Inovação e Empreendedorismo e Sustentablidade da FGV

Alexandre Borges, vídeo sobre o empreendedor:

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