Saindo da Ressaca da Copa

Escola Vitoriana

Escola Vitoriana

Escola anos 2000

Escola anos 2000

Ford anos 30

Ford anos 30

Montadora anos 2000

Montadora anos 2000


Foi no apagar das luzes de 2010, que Pyr Marcondes, editor da revista Proxxima, me ligou pra dizer que o meu negócio, a 5 Years From Now®, o tinha inspirado a comemorar os 15 anos de Internet, agora em janeiro de 2011. Como? Com um mote do futuro, perguntando a experts “Como serão os próximos 5 anos da Internet no Brasil?”

A matéria é um especial de capa e se chama “A um passo de daqui a pouco”. E eu estou lá, no meio de gente mega importante como o Ray Ozzie, ex-diretor de inovação da Microsoft; Abel Reis, CEO da Agência Click; João Batista Ciaco, diretor de publicidade e relacionamento da FIAT e mais 16 feras.

É muito muito bom ter essa certeza que o negócio da gente é inspirador! Olha só o texto de abertura assinado pelo próprio Pyr Marcondes.

“A ideia de projetar os próximos cinco anos da internet e do mundo digital … nasceu do fato de a Plataforma Proxxima haver celebrado e comemorado, como nenhuma outra iniciativa editorial no país, os 15 anos da implantação da WWW no Brasil.

Haver esgotado o passado só nos deixou uma dimensão: explorar o futuro.
Beia Carvalho, sócia e fundadora da 5 Years From Now, por ter consolidado uma empresa que se propõe a olhar permanentemente o futuro, aprisionando-o numa esperta armadilha ano após ano – o futuro se desloca no tempo, a proposta da empresa se desloca com ele, muito engenhoso – foi outra inspiração deste suplemento. E eis que, cinco anos, a partir de agora, estamos em 2016.”

Para quem ainda tem fôlego, aqui começa o meu artigo, publicado nesta edição de janeiro de 2011: “Saindo da Ressaca da Copa”. Boa leitura.

Estamos em janeiro de 2016. Ressaca curada. E a poucos meses da tão sonhada Olimpíadas.

Sempre pensei que esperar por esta reta final seria o mais incrível. Bem se vê, que de futuro, não entendo nada. Porque para qualquer um que esteja vivendo este início de 2016, no Brasil, pode ver com os seus próprios olhos que o mais espantoso já aconteceu – e continua acontecendo.

Foi no finalzinho de 2010, que meu amigo e ex-sócio, Pyr Marcondes, me pediu que escrevesse um artigo para comemorar 15 anos de Internet no Brasil e o futuro dessa abissal revolução. E agora já temos 20 anos!

Confesso, que à época, eu e muitos de nós estávamos só curtindo o boom do Brasil. Mas a coisa na educação estava muito feia. Feia porque já estava complicado pro mundo todo repensar a Escola. Uma instituição que, como dizia o repensador Alexandre Le Voci Sayad, nada tinha mudado desde os tempos vitorianos. Pra quem ainda não visualizou, recomendo. “Gugue” a imagem de uma escola vitoriana e da escola mais moderna no final da década passada. Atônito? Pois é, só a cor da foto mudou. Aproveite e “gugue”, uma da fábrica da Ford dos anos 30 e qualquer montadora em 2010 – eu disse, qualquer. Brutal?

Mas, sem dúvida, a coisa estava muito mais feia por estas bandas, onde o descaso já imperava há mais de 2 décadas! E os rankings internacionais escancaravam a todo momento nossos pífios resultados. Nos idos de 2010, o mundo já sabia que países sem a Educação, em plena aurora da Era da Cognição, estavam na contramão do futuro. No Brasil, era a vez dos escândalos do ENEM. Lembram-se? Nem parece que foi aqui e há tão pouco tempo!

Nesta época, começaram a pipocar, ao meu redor, algumas pessoas realmente dispostas a “mudar o mundo”, mantra das gerações da Nova Era, e dos neo-educadores como a socióloga Silvia Kihara, Luli Radfahrer, Tiago Mattos, Gilson Schwartz e Leonardo Brant, só para citar alguns.

Portanto, foi há uns 6 anos que comecei a entender que, pela primeira vez na nossa história, tínhamos uma produção social descentralizada, e que pela primeira vez esta “virada” tinha um impacto econômico – que virou de cabeça pra baixo tudo o que nós, como nossos pais, sabíamos. E que é muito mais gostoso e emocionante (e, por isso, tantos indivíduos por todo o mundo aderiram) DOAR tempo para inserir ou corrigir um verbete na Wikipédia, que ouvir um professor que insiste que ensinar é fazer memorizar. “Memória, deixa que o Google resolve”, diz Radfahrer*. Memorizar não inspira, não move o mundo.

Também começávamos a ouvir mais e mais que “dinheiro não era mais a melhor motivação” dos homens. Coisa difícil de aceitar para baby boomers, como eu. E que Yochai Benkler tão bem-humoradamente descreveu, lá em 2005: “você não aumenta suas chances de ser convidado novamente para um jantar entre amigos, se deixar uma nota de 50 sobre a mesa”. E apimentou, “se o exemplo do jantar não é óbvio, pense em sexo”.**

Quando comecei a compreender essa quase intolerável nova realidade – que disruptou a tradicional produção econômica, com todas as suas trágicas conseqüências – e a confrontá-la com a precária situação da educação brasileira, não vi saída. Foi nessa época, que começaram a falar em uma nova onda imigratória de mão de obra especializada para preencher nossos buracos aprofundados por tantos anos. Quase 25.000 vistos de trabalho foram concedidos em 2010.***. Americanos e britânicos lideram a onda, 60% com experiência, qualificação e formação universitária, e praticamente todos com 2o. grau completo. Ou seja, para se ter uma ideia da nossa fragilidade de então, o tal “especializado” incluía gente que apenas havia completado o segundo grau!

Mas minha descrença na educação vem de longe e se acirrou há uns 15 anos, quando em 2005, no auge da aceitação da língua inglesa como língua mundial li, perplexa, a declaração do chanceler Celso Amorim que para tornar ‘mais democrático o acesso à carreira diplomática’, o presidente Lula havia tido a idéia de excluir o inglês das provas eliminatórias para o ingresso no Instituto Rio Branco. Ao que o jornalista Augusto Nunes, replicou com um artigo “Que tal instituir a prova de mímica?”****. Falando em contramão da história!

É ainda do mesmo ano de 2005, a frase que os indivíduos com alguma chance no mundo seriam os que tivessem entre 12 a 14 anos de estudo, no mínimo. Pensei: “Ai, meu Jesus Cristinho, coitado dos ‘indivíduos’ brasileiros!”

Se não me falha a memória, foi ao final de 2011 que uma grande movimentação se instaurou em torno de uma Revolução na Educação Brasileira. Cabeças dos mais diversos naipes e competências trouxeram suas idéias e mergulharam nos melhores exemplos do mundo: uma feijoada de referencias nórdicas, coreanas, americanas e européias. Foi uma coisa assim, como o Muro de Berlim que um dia, inesperadamente, caiu. E 2013 começou regido sob uma nova égide, a égide da Inteligência Conectiva que “estimula o aluno a criar os seus próprios pontos de vista, suas teses, suas teorias. Esses são os tweets. As teorias prévias são apenas retweets”.*****

Sempre ouvi que os governos brasileiros não investiam em saneamento básico e em escolas, porque um ninguém vê e o outro demora 20 anos pra dar frutos – e os governantes não estariam por perto para colher os seus louros.

Mas vejam que desfaçatez! Estamos todos aqui no desabrochar do glorioso ano de 2016 para provar que em apenas 3 anos muita coisa mudou. De uma forma abissal, como e com a Internet.
Num mundo de excesso de informação, “o papel da educação é apenas jogar a gasolina. O próprio aluno é quem ateia o fogo.” ****

Hoje em dia, insisto, em apenas 3 anos, já vemos o debate, o argumento de volta às salas de aula. A vontade de fuçar, ir atrás do saber. Saber. Saber que não sabe. Saber.

O que mais vemos nesta reta final para os Jogos Olímpicos de 2016?

Já começamos a estimular o eixo horizontal da educação, a interconexão entre os pontos e já colhemos a produção de teorias próprias em lugar de memorizar teorias preestabelecidas.***** Banda larga, larga de verdade, esperada para depois das Olimpíadas está aí. E é direito do cidadão. Me fez lembrar da nossa TV a cores que quando finalmente chegou no Brasil, era a melhor do mundo. Brasileiros capacitados a criar, porque os neo-educadores estavam certos: a inclusão digital funciona mesmo como ponte para a inclusão cultural, social e política. Como também já havia predito o Banco Mundial, que afirmou que para cada 10 pontos percentuais de aumento na taxa de alcance da banda larga, num país como o Brasil, a renda per capita cresceria 1,38 ponto percentual. Foi no bojo da Revolução da Educação que caiu a ficha que “nas sociedades modernas, a banda larga é tão importante quanto o acesso à luz.” ****** WOW!

Vimos a diluição do copyright, pois vivemos num mundo de produção descentralizada em que a nossa antiga Lei de Direitos Autorais já não reverberava os nossos anseios.

Hoje as escolas ficam abertas 24/7 (por que as escolas fechavam antigamente?). E já se projeta para 2020, um expressivo aumento das nossas mirradas patentes, ainda hoje o símbolo que afere o grau de inovação tecnológica de um país. Tem a ver com o desempenho e crescimento de nossos pesquisadores, como consequência do vigoroso desenvolvimento do ambiente de pesquisa instaurado após a REVOLUÇÃO. E o melhor de tudo: brasileiros cidadãos que são cidadãos do mundo, que se sentem em casa aqui e @li.

Quando o Mercado tem à sua disposição indivíduos que sabem o que estão fazendo, gente interessada e que sabe pensar, o céu é o limite. É essa nova gente que está levando a Internet e o Brasil rapidamente ao novo estágio da civilização, a este novo e próspero jeitinho de se organizar, colaborar, produzir e ser feliz.

Feliz 2016 para todos os brasileiros que “amplificaram a sua camada de desconhecimento. Que já sabem que não sabem. Porque quando podemos ter a consciência da nossa ignorância, a gente naturalmente corre atrás das coisas.”******

2016, promete!

Pronto! Já imaginamos o futuro! E o que pode ser imaginado pode ser criado. Porque criatividade é um modo de ser e inovação é um modo de fazer.

A internet do futuro não é um capítulo à parte do Brasil, é a nossa expressão como povo, é a nossa dimensão do que é cidadania. Hoje aplaudimos o Capitão Nascimento, damos 83% de aprovação ao Lula, agüentamos esta burocracia e corrupção que beiram o insuportável. Temos artistas, cientistas e empresários incríveis, homens e mulheres fabulosos, crianças fantásticas.
E o futuro?

O futuro que a gente quer, a gente começa a fazer hoje. E você, como quer o Brasil em 2016?

Nota: este texto foi escrito abusando da Cultura Remix com a colaboração do amigo, professor, redator, diretor de criação e blogueiro Jayme Serva e de meu filho Galileo Giglio, designer gráfico, diretor de criação e CEO do Estúdio Mol.

*Luli Radfahrer, Palestra “Para que serve uma monocotiledonea?”, Descolagem, 22NOV2008
** Yochai Benkler*, professor de direito em Harvard, TEDGlobal 2005
*** Revista VEJA 21OUT09
**** Augusto Nunes “Que tal instituir a prova de mímica?”, JB, 23JAN2005
***** Tiago Mattos, Palestra Educação com Criatividade, TEDXPortoAlegre 2010
****** Revista VEJA, 29SET2010

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    7 comments

    1. Harold Escorcia

      Muito Bom Beia. I enjoyed your views of education in Brasil, and its future challenges. Brigado.

    2. Maravilhoso Béia!!
      É isso aí…para realmente mudar e crescer o Brasil, só precisamos investir para valer em:
      Educação, Educação, Educação, Educação, Educação, Educação, Educação, Educação, Educação, Educação, Educação, Educação, Educação, Educação,Educação, Educação, Educação, Educação, Educação, Educação, Educação, Educação, Educação, Educação, Educação, Educação, Educação, Educação,Educação, Educação, Educação, Educação, Educação, Educação, Educação, Educação, Educação, Educação, Educação, Educação, Educação, Educação…

    3. Parabéns, Beia, sinto mto orgulho de vc!

    4. Maria Cristina Brancher

      Muito bom mesmo! parabéns pelo artigo. Precisamos disso: EDUCAÇÃO JÁ!!!!

    5. Olá Beia,
      Adorei este post, principalmente as fotos comparando a Escola Vitoriana com a Escola dos anos 2000.
      O incrível é que cliquei “quase que aleatoriamente” nas categorias.
      Eu também gosto MUITO de temas que abordam e criticam nosso atual modelo de educação.
      Veja meu post que tem alguns vídeos fantásticos do TEDxSP:
      http://www.konfide.com.br/tendencias/cursos-30-e-internet-o-que-muda

      Abraços,
      Marcio Okabe
      @marciokonfide

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